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A bela Dema

26 de junho de 2018

Dema era uma morena de 35 anos, com cara de 60. Os cabelos grisalhos, a cintura gorda, a bunda caída e a cara enrugada não a faziam sentir-se menos bela. Ao contrário, dizia que ainda dava no couro e fazia programa todo santo dia. Ou melhor dizendo, toda santa noite.

Passava o dia varrendo os corredores do Fórum de Princesa, mas à noite fazia ponto no cabaré de Terto, na Rua da Palha, garantindo que a clientela era fiel e crescente.

Acreditar nela, todos acreditavam. Não tinha jeito de mentirosa. A sua simpatia a tornava merecedora de crédito. Moça de boa conversa e de conversa inteligente, é bom dizer.

Não era de Princesa, nasceu em Teixeira, nos arredores de Zé Lira. Mudou-se para lá depois de viver alguns anos em São Paulo, cidade que renegou devido às desilusões. E quantas desilusões.

Era puta nova em São Paulo e numa certa noite andava com uma colega de trabalho quando o assaltante apareceu. Tomou o que elas tinham e, não satisfeito, deu cinco tiros em Dema. Não morreu, mas herdou sequelas. Perdeu um rim e o baço.

Ainda no hospital, depois da operação, recebeu a visita de Quidute, o macho com quem dividia o cobertor. O médico, com aquele ar de médico, contou o acontecido e a consequência:

– Ela perdeu um rim e o baço.

E Quidute, pesaroso:

– Até que eu gosto dessa mulher, doutor, mas como é que vou viver com uma pessoa faltando um braço?

Dema ria, lembrando esse detalhe. Quidute era um safado. Dema tinha economias guardadas em casa, Quidute sabia das jóias e dos mil reais que ela juntou tostão por tostão, sonhando com a volta ao Nordeste. Pois caçou o dinheiro, achou e passou uma noite de marajá no cabaré. Gastou tudo. Não ficou um réis.

Mas Dema, couro grosso de nordestina paraibana, resistiu a tudo e finalmente recebeu alta. Voltou para casa, procurou os pertences e nada encontrou. Só Quidute, lá pelos cantos, todo desconfiado. Apertou o negão no canto de parede, ele terminou confessando a gastança, a extravagância de uma noite de orgia, mas, candidamente, se explicou:

– Minha filha, fiz isso porque pensei que você ia morrer.

 

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