opinião

Anti-revisionismo dos lugares

25 de março de 2025

Miguel Lucena

O revisionismo em voga, que tenta apagar da paisagem urbana os nomes de pessoas ligadas a períodos controversos da história, tem se mostrado não apenas uma injustiça seletiva, mas também um perigoso precedente para a fragmentação da memória coletiva. A retirada de nomes de ruas, praças e monumentos — muitas vezes por motivações ideológicas passageiras — está transformando nossas cidades em palcos de disputas simbólicas, onde o que deveria ser memória se converte em terreno de litígio político.

A mais recente polêmica em João Pessoa, como bem destacou Tião Lucena em seu artigo, expõe esse revisionismo em sua faceta mais arbitrária. Numa sanha por reescrever a história sob o prisma de um único ponto de vista, incluíram até o nome de Joacil de Brito Pereira entre aqueles a serem apagados. Joacil não foi militar, não foi torturador, não empunhou armas — foi um intelectual, deputado eleito pelo povo, presidente da Academia Paraibana de Letras. Que crime cometeu, senão o de ter manifestado sua simpatia por um regime que, à época, contava com a adesão de amplos setores da sociedade civil e da elite política?

É preciso compreender que nomes de ruas e praças são mais do que homenagens — são marcos de referência afetiva, geográfica e histórica. Mudá-los a cada troca de governo é instaurar um ciclo vicioso de apagamentos, um eterno desfazer do que o outro fez. Hoje se elimina Joacil, amanhã se apagará José Américo, depois Ivan Bichara, e em breve qualquer nome que não se alinhe com a ideologia dominante do momento será considerado impróprio para nomear uma esquina.

Defender a permanência desses nomes não é fazer apologia de regimes autoritários, mas sim reconhecer que a história é plural, contraditória, feita de avanços e recuos, de luzes e sombras. Não cabe ao poder de turno impor uma narrativa única. Cabe-lhe, sim, acrescentar: criar novas homenagens, erigir novos monumentos, abrir espaço para outras vozes — mas sem obliterar as que vieram antes.

Quem governa tem, naturalmente, o direito de escolher os nomes que deseja ver representados nos novos espaços públicos. O que não se pode admitir é que esse direito se estenda à destruição do que foi feito por gestões anteriores. Isso desfigura o território e desrespeita o sentimento das pessoas que cresceram, viveram, amaram e construíram suas vidas sob os nomes agora banidos. A memória urbana é um tecido que não se remenda com censura.

A pluralidade histórica exige convivência com os contrastes. Apagar nomes não corrige injustiças do passado; apenas enfraquece a identidade dos lugares e empobrece nossa compreensão da própria história. Que se combatam os erros do passado com educação, debate e verdade — não com o cinzel da censura simbólica.

Preservar os nomes das praças, ruas e bairros é, no fundo, preservar a memória das pessoas que por eles passaram. É respeitar a história como ela é: complexa, imperfeita, mas ainda assim nossa.

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6 Comentários

  • Reply Wergniaud Breckenfeld 25 de março de 2025 at 17:52

    Um texto marcante, que merece ser preservado na memória histórica da imprensa paraibana!
    Parabéns, senhor Miguel!
    👏👏👏👏👏👏👏👏

  • Reply PAULO SÉRGIO LYRA 25 de março de 2025 at 19:27

    Gostaria de parabenizar o Sr. Miguel Lucena por este lúcido artigo. Comungo com o seu pensamento em termo, número e grau.

  • Reply Michel 25 de março de 2025 at 19:42

    Quando o caba sabe escrever, transmite tudo o que queríamos falar.
    Simplesmente resumiu tudo de forma esclarecedora.

    Este post era pra ser enviado imediatamente para quem teve essa brilhante ideia de mudar e mexer no que está quieto.
    Na mesma hora essa turma iria recuar.
    Parabéns pelo artigo, disse tudo…

  • Reply Zé da finada zeza 25 de março de 2025 at 20:32

    Como você mesmo pontuou, dar nome às ruas sempre foi um ato de homenagem e defensores de ditaduras não são dignos de honra alguma, caro escritor.
    Você quer história? Que visite museus!

    • Reply José 26 de março de 2025 at 06:07

      Pela sua lógica, quando o outro lado ganhar as eleições, mudará tudo novamente?

  • Reply Roberto Macedo 26 de março de 2025 at 07:24

    Logradouros públicos, como o próprio nome já diz, pertencem à sociedade, Daí, entendo que não podem ser usados para homenagear aqueles que atentaram contra a democracia, causaram sofrimento a um povo já tão vilipendiado, nos levaram a momentos de trevas e obscuridades e, porque não dizer, em alguns casos, até a morte de inocentes. Entendo que é um absurdo manter os nomes de figuras desta estirpe estampados em cidades, ruas e praças. A história está preservada nos livros, o que é salutar, pois não podemos esquecer momentos tão sombrios, abjetos do nosso país.

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