Miguel Lucena
O Chico Pança da 113 Sul, sempre um passo à frente na revolução gastronômica, acaba de romper mais uma barreira da culinária contemporânea: elevou o ovo frito à categoria de bife. E não qualquer bife – agora, no buffet do almoço, ele atende pelo glorioso nome de “Bife do Olhão”.
A placa, colada com fita adesiva perto do rechaud das carnes, não deixa dúvidas: “Conta como carne”. Para os desavisados, pode parecer um erro ou uma pegadinha de algum funcionário brincalhão. Mas não, é política da casa. No Chico Pança, a verdade é maleável e adaptável às condições do mercado – especialmente quando o preço do contrafilé anda mais salgado que o próprio sal grosso.
O novo título não passou despercebido pelos frequentadores. Seu Geraldo, um tradicionalista do prato feito, torceu o nariz. “Bife tem que fazer ‘tchiiiiiii’ na chapa, ter fibra pra mastigar! Ovo é ovo!” – protestou, enquanto despejava farofa no prato, inconformado. Já Dona Neide, sempre otimista, viu vantagem: “Agora posso dizer que como bife todo dia, sem gastar mais por isso.”
O movimento também despertou reflexões filosóficas. Se o ovo virou bife, o que mais poderia ser redefinido? O frango assado viraria “porco do terreiro”? A lasanha de berinjela seria promovida a “feijoada vegana”? E o picadinho? Melhor nem perguntar.
Enquanto os clientes debatiam, o Chico Pança seguia firme em sua missão inovadora. Na cozinha, a equipe já testava novas formas de convencer a clientela de que, sim, o mundo mudou, e o ovo agora é uma entidade carnívora. “Feche os olhos e mastigue devagar”, sugeria um dos garçons. “Sinta a suculência, a proteína… pense num bife à cavalo sem o cavalo.”
No fim das contas, o paladar se acostuma, o estômago agradece e o bolso sorri. No Chico Pança, ninguém passa vontade – nem a realidade.
Agora, me vê aí um Bife do Olhão ao ponto, que hoje eu tô chique.
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