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Domingueiras do Tião

16 de fevereiro de 2025

EITA MUNDO PEQUENO!

Em janeiro de 1945 o correspondente de guerra, Rubem Braga, encontrou nos campos de batalha da Itália um pernambucano de Afogados da Ingazeira, que, como contou mais tarde, se alistara no Exército por causa de uma raiva que teve em Princesa, na Paraíba. Ele tangia bois e ao tentar passar com a boiada na terra de Zé Pereira, foi impedido por não portar a carteira de reservista. Revoltado, juntou os trapos numa mala velha e foi embora, para o Exército, firme no propósito de um dia voltar, documentado, para completar a viagem.

Seu nome: Otacílio Braz Leite.

E a sua história, nas palavras de Rubem Braga:

“Outro dia eu estava na estrada à procura de uma reportagem, mas o “carro-comando” enguiçou num atoleiro e escureceu sem aparecer quem nos tirasse de lá. Então comecei as conversar com o motorista – e essa conversa dá uma crônica.

O motorista é um rapaz louro, de bigodes louros e, como o conhecia pouco, pensei que fosse de Santa Catarina, por exemplo, mas estranhei o seu sotaque. Ele me explicou que era nascido em Afogados da Ingazeira e residente em Carnaíba das Flores, Estado de Pernambuco, e se chamava Otacílio Braz Leite.

Perguntei como é que ele veio parar no Expedicionário e ele explicou:

– É porque eu fui levar uma boiada na Paraíba…

A história é perfeitamente verdadeira: Esse homem está aqui, ao meu lado,numa horrível estrada dos Apeninos ouvindo a explosão das granadas alemães, nesta tarde de chuva e frio, porque uma vez foi levar uma boiada à Paraíba…

– Não era muito gado, mas era só reprodutor bom, umas 37 cabeças. Meu pai tem uma fazenda de criação em Carnaíba das Flores e eu sempre viajava pelo sertão para buscar boi e levar boi. Dessa vez eu tinha que tocar por umas 100 léguas, até Sousa, no sertão da Paraíba,mas quando cheguei em Princesa não pude passar. Teimei muito, mas disseram que sem carteira de reservista eu não passava com o gado. Então fiquei danado e voltei com o gado até Carnaíba e disse lá em casa que ia dar um passeio. Botei a mala nas costas e andei 5 léguas, até Afogados.

Lá arranjei lugar num caminhão para Garanhuns e em Garanhuns peguei outro caminhão para o Recife. Perguntei onde era o quartel, fui a Socorro, me apresentei no 21º B.C.

O resto da história é simples: O voluntário Braz foi depois transferido para o 14º R.I. e ali ficou sendo ordenança do Capitão Sílvio Cahu. Esse oficial foi depois para São Paulo, onde servia no Q.G. da Região – e o ordenança foi também. Um dia o comandante da Região – que era o General Mascarenhas – foi nomeado comandante da Força Expedicionária – ordenança e capitão o seguiram. Nesses 5 anos de Exército, Braz aprendeu muita coisa, e entre outras a ser motorista. Diz que gosta mais de equitação, que também aprendeu – o que é natural em um vaqueiro. (E eu acho que ele deve saber andar a cavalo melhor do que dirigir “carro comando”.)

– Esta vida é engraçada. Lá eu levava tropa de boi, aqui, às vezes, me dão um caminhão e eu levo tropa de gente…”

– Braz, o que é que você vai fazer quando acabar a guerra?

– “Bem, eu tenho uma noiva, quero ver se caso. Depois vou para a fazenda…”

E pensando nas boiadas:

– Eu só quero ver se eles vão me barrar outra vez lá em Princesa.

 

DIA DO PROCURADOR

O Dia do Procurador do Estado foi comemorado intensamente pela Aspas, presidida por nossa sempre bela e simpática Sany Japiassu. Um dos destaques foi a inauguração do auditório Procurador Ariano Wanderley, um excelente amigo que nos deixou prematuramente. Ex-Presidentes, Procuradores das antigas e da nova geração irmanaram-se numa inesquecível festa.

 

O TIME DOS VELHOS

Os amigos que morreram ao longo dessa minha jornada encheriam um salão de festa.

Claro, exagero de expressão isso aí, mas não foram poucos os que mudaram para o outro mundo.

Dos companheiros de infância, poucos restaram. Conto nos dedos.

De adolescência e juventude, idem.

E dos que se incorporaram ao time na idade adulta quase a metade também já se foi.

Lembrei agora de Zé Samuel, o conterrâneo que se especializou em anunciar os nomes dos mortos.

De tanto anunciar, terminou morrendo sem ter quem anunciasse o seu adeus.

Por que me pego falando desse assunto?

Simplesmente porque descobri que a fase da solidão dos que, mesmo em meio ao burburinho da vida, sentem-se sós pela falta dos antigos companheiros, não é uma lenda, uma ficção. Ela existe, está aí na porta insultando, desafiando, perguntando o que você continua fazendo aqui, quando todo seu time já está do outro lado.

E olhem que não sou tão velho assim.

Nem eu, nem Chico Pinto, tampouco Vavá da Luz.

Entramos nos enta cheios de vigor, com tesão natural ou artificial, mas jogando nas quatro linhas.

Vavá, por exemplo, procurou socorro na clínica do cirurgião e se valeu da borracha para substituir a carne inerte. E ele faz questão de alardear que aquele cheiro de borracha queimada que incendeia os arredores da Senzala não é fruto das queimadas dos monturos da Prefeitura. É ele agindo e mostrando que está vivo.

Chico Pinto quer entrar no time de Vavá e até me estimulou a fazer o mesmo.

O danado é que aqui no lar há resistência. A mulher já disse que se eu implantar um negócio desses, não boto mas os pés fora de casa.

E cumprir pena em prisão domiciliar é coisa pra rico.

Resta, portanto, olhar a fila andar.

E ligar para os poucos restantes perguntando o número da respectiva senha.

Ou então tomar uma no Bar de João.

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2 Comentários

  • Reply zebedeu 16 de fevereiro de 2025 at 08:37

    amigo velho, ontem você atrasou no horário. Fui trabalhar sem a minha leitura tradicional, fiquei até preocupado.

  • Reply Sebastião Gerbase 16 de fevereiro de 2025 at 09:28

    Tião, ultimamente você tem se preocupado muito com tesão. Deixe isso pra lá, homi, o que passou, passou! Faça como eu que me contento com “já fui bom nisso!” 😁

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