opinião

UM USINEIRO DE OPOSIÇÃO

18 de setembro de 2022

RAMALHO LEITE

Quando entrei na Assembleia Legislativa da Paraíba, encontrei o deputado José Fernandes de Lima como líder da oposição. Eu tinha sido vereador pela antiga UDN, partido do meu pai. Com a extinção das agremiações renegadas pelo regime militar, a ARENA tornou-se o meu partido. Renovei meu mandato em 1982, na mesma legenda do ilustre filho de Mamanguape, e quedei-me sob sua liderança. No mandato seguinte, o elegemos Presidente, e eu assumi a liderança do PMDB e do Governo. Em 1991, deixamos juntos a Casa de Epitácio Pessoa. Eu segui o governador Burity no PRN e na canoa furada de Collor. Zé Fernandes permaneceu onde sempre esteve. Os partidos podiam mudar de nome, mas a sua posição era a mesma. Até, quando as forças mais conservadoras do país se acolitaram sob o manto dos militares, o usineiro Zé Fernandes preferiu a oposição e nela se fez respeitar.
O passeio a esse passado recente, vem a propósito da sessão especial da Comissão de Cultura e Memória do Poder Judiciário, promovida pela desembargadora Maria de Fátima Bezerra Cavalcanti para homenagear o Centenário de Nascimento do Historiador José Fernandes de Lima. O ponto alto do encontro foi o lançamento do livro do imortal Marcos Cavalcanti de Albuquerque sobre o homenageado e suas raízes mamanguapenses. A obra retrata a trajetória dos irmãos Fernandes, com destaque para a transformação do Engenho Guarita, na imponente Usina Monte Alegre, que, até hoje, em mãos de outros gestores, é uma das maiores geradoras de emprego e renda do Vale do Mamanguape.
A solidez econômica do grupo familiar e o respeito conquistado junto à sociedade paraibana, projetou muitos dos seus membros na política partidária, e dois deles, os irmãos João e José, chegaram a governar a Paraíba. O primeiro em substituição a José Américo de Almeida, nomeado Ministro de Vargas, e o segundo, no lugar de Pedro Gondim, (vice do enfermo governador Flavio Ribeiro) que renunciara para ser candidato. Zé Fernandes assumiria ainda o governo, como substituto eventual de Burity.
A lição de Zé Fernandes: “O líder da bancada deve ser o primeiro a chegar e o último a sair do Plenário”. Ele cumpria fielmente esse preceito e costumava ficar na ultima fila da bancada, para barrar os que tentavam burlar a sua vigilância durante a realização das sessões. Dois dos seus pupilos, os atuantes deputados Ruy Gouveia e Bosco Barreto, costumavam dar uma fugidinha ao bar de Dona Chiquinha, a poucos passos da Assembleia. Quando voltavam, devidamente abastecidos, se revezavam em virulentos discursos contra o governo militar. O líder, preocupado, apenas ironizava:
– Ninguém controla esses meninos…Eles tomaram várias doses de “coragem cívica”… ( Recebi da Academia de Letras do Vale do Mamanguape a Comenda José Fernandes de Lima, razão dessa republicação)

Você pode gostar também

Sem Comentários

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

1